quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sulamita não usa facebook! - Cantares de Salomão (XVIII)


 Esta é a voz do meu amado...(RC; 2: 8)

Vivemos num mundo em que a tecnologia permitiu acesso a novos lugares, conhecimentos e pessoas, mas estes nossos encontros são quase sempre rápidos, fortuitos, superficiais e cleans (excessivamente cleans), e o que muitos de nós demoram ou nunca conseguem perceber é que a facilidade do encontro não necessariamente se traduz num encontro de felicidade!

Sulamita não usava facebook e, provavelmente, se usasse, não conseguiríamos perceber quão distantes estamos hoje daqueles valores cantados por ela. Ao ler o livro de Cantares e confrontando-o com nosso tempo, concluo dois tristes fatos: primeiro, necessitamos de contato físico, mas o buscamos em lugares escusos e, segundo, a perda de nossa sensibilidade a tudo aquilo que é natural e real, fazendo com que mergulhemos em armadilhas desse universo virtual.
imagem Fabio Meireles


Deus nos revestiu com o órgão da pele por todo nosso corpo, portanto somos seres projetados à sensibilidade. O toque é algo tão fundamental ao ser humano que o próprio ministério de Jesus foi caracterizado pelo toque, o toque de suas mãos sobre leprosos, aleijados, cegos e pecadores rejeitados! Ironicamente, o facebook cria a ilusão da aproximação pela identificação com o outro, todavia esquecemos que aquelas não são pessoas reais, mas personagens meticulosamente construídos para uma apresentação: a foto, a roupa, as palavras, os gestos e os gostos, tudo muito bem trajado de uma limpidez inexistente. Qualquer resquício de realidade pode ser facilmente posto para fora do mundo virtual – somos recortes, retalhos e remendos, mas não uma peça inteira de nossa tapeçaria. E esquecemos disto!

Surpreende-me, então, como tantas pessoas sucumbem à virtualidade dessa rede: casamentos são destruídos, traições são efetivadas, adultérios são avidamente teclados... Somos seres sempre em fuga da realidade – e esta talvez seja uma das mais tristes características de nossa natureza humana desde a queda no Éden. Trocamos facilmente o mundo real pelo virtual; deixamo-nos seduzir pela promessa de coisas que não possuímos, ainda que eu saiba que não me pertencem; aceitamos a proposta diabólica de trocarmos TUDO o que recebemos graciosamente das mãos de Deus por uma esperança tola baseada em fúteis aparências de um afago virtual...


Muitos entre nós estão tão absortos trocando mensagens e comentários virtuais que nossos ouvidos fazem-se moucos às vozes daqueles que estão a nossa volta, próximos de nós... Identificaria tudo isso chamando de “nossa glutonaria emocional”: comemos muito, comemos em excesso ao ponto de comermos mal e a nossa cultura consumista não nos ensinou a arte da degustação de um bom vinho, este prazer em distinguir os diferentes odores e sabores das pessoas, suas singularidades. Hoje, são raros os que manifestam esse traço da Sulamita de tratar ao outro com tamanha reverência: ostentamos uma lista infinda de “amigos”!
imagem Fabio Meireles

Sulamita não usava facebook e, neste ponto do poema, mais uma vez, o lugar da cena se altera e ela se vê sozinha em casa, entretanto, é o vento que lhe traz a voz do amado. Ela o distingue, enquanto ele, cantando, busca-a de longe entre as colinas. A voz do amado, a voz do outro, perdeu-se desde que nos perdemos de Deus no Éden: “naquele dia, quando soprava o vento suave da tarde, o homem e a sua mulher ouviram a voz do Senhor Deus”... A voz do Amado trazida pelo vento, mas esta nossa sensibilidade aviltada pelo pecado e que já não percebe a natureza como veículo da Graça de Deus! E se já não distinguimos a Voz de Deus trazida pelo vento, também discernimos cada vez menos nessa multidão impessoal a voz do outro, este semelhante ao nosso lado.

É a própria natureza quem anuncia a Sulamita a vinda do seu amado – como encontrarmos novamente a poesia perdida deste vento-verso que ainda insiste em nos trazer aos ouvidos a voz do outro?


Um comentário:

  1. Querida Mara, é um prazer e privilégio estar aqui na sua casa novamente. Muito obrigado. Abraços sempre afetuosos. Saudades!

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